Para Júlia, neste seu encantado dia.
A ética foi minha filosofia primeira. Toda ética começa em casa e se desenvolve a partir de indivíduos éticos, de lugares éticos, como a casa, o aconchego da lareira, do fogo aquecedor ou sagrado.
Não aprendi isso nos livros não.
Aprendi isso na vida, ainda criança, com meus pais e meus irmãos, dentro de casa.
Logo fui dado a saber que ninguém - em nenhum tempo ou lugar - tem ou teve, a prerrogativa do monopólio da ética.
Mesmo quando nos perdemos num mar de fogueiras ou de vaidades no meio do mundo. [Bom momento para se retornar ao ninho, acredito].
Também não importa o grau ou estágio civilizatório, nem grau de desenvolvimento, tipo de homem ou mulher, de escolaridade, a condição social, classe, nacionalidade, partido, língua ou credo - a ética não é privilégio nem propriedade de alguém, instituição ou centro de convenção ou de dever ético.
Pois a ética não é dever nem obrigação em parte alguma do mundo - nem mesmo como dever de casa.
A ética começa em casa, começa pequena, começa criança. A ética é um devir-criança. É um devir esperança, um pedaço de fé na vida, no mundo.
A ética é um futuro que se aquece e se mima – como se mima o amor da gente – e se quer sempre, presente, ainda que na ausência, entre o aconchego da casa e fogo do mundo. Iluminuras de clarões. Proxemia de abismos.
Pois a ética tem tudo a ver com o aquecimento global, mas, principalmente, e muito mais que isso – tem um que de aquecimento, tanto interno como eterno, finito e infinito, dentro de fora de nós.
Gesto luminoso, sim! Sem dúvida há um quê de divino no gesto ético; mas é principalmente um ato de iluminuras, como na Casamundo, nas eleituras da Cidade Futura, a toda hora, principalmente no ato de leitura - quando o leitor incomum interage com o livro escolhido e acolhido (dentro da casa); e, nesta interação, somos tomados pelo mais grandioso dos atos humanos que é aproximar os abismos, a vida (que passa, e é breve) e a escrita infinita, só encontrada na arte do livro. Por isso o livro é das artes a mais nobre de todas. Arts infinita que sobrevive até mesmo ao seu autor.
Todo indivíduo ou grupo, instituição ou coletividade, ainda por algum momento que quis guardar para si o monopólio da ética, logo se viu num drama ético terrível diante do primeiro estrangeiro que pisou na área.
No máximo, tais indivíduos ou instituições, conseguem manter as aparências – a questão da aparência tornou-se uma questão ética profunda - nem passar a impressão (prova de fogo dos ‘exemplares’ éticos) de que são ‘únicos’ ‘legítimos’ e/ou ‘autênticos’ portadores do ‘missionísmo’ ético.
É o que acontece quando se faz da ética uma convenção, lei ou doutrina de ‘moral’ e/ou ‘cívica’.
A ética pode se tornar uma ideologia, no sentido da ideosfera (camada que cobre, veste, mascara ou disfarça os indivíduos e as instituições, tornando-os o que não são). E assim faz dando ares de cidadania cosmopolita, submetendo o próximo (que é sempre o estranho outro) em ciladas de idiotopias.
Nesta ‘nossa’ definição de ética - que é de Espinosa – quando travestida de um código escrito ou convenção, a ética, deixa de ser uma liberdade dos indivíduos para se tornar um dever da ‘sociedade’.
A escolha ética é umaa escola da liberdade.
Ao tornar-se dever ou obrigação perde sua força vital-vitalizadora.
No seu lugar, então, conhecemos a força da lei, o arbítrio, a doutrina, os mandamentos.
Nas religiões, isso é conhecido como ‘complexo de farisaísmo’; na política, fabricação de hipocrisia, e na mídia, espetacularização do cinismo.
Daí porque as religiões – seguidas pelos partidos e meios de mídias - baseiam sua magia, sua força e seu poder de mobilização nos preceitos estabelecidos (pela igreja ou igrejas – seus pastores/teólogos e midióticos) os mecanismos ou tecnologias-máquinas que só operam ou funcionam por códigos morais ‘transcendentais’.
A ética não é de jeito nenhum ministério da transcendência; antes, situa-se no plano de imanência.
Daí por que toda ética - de alcance social, pública e republicana - começa em casa, começa com os indivíduos.
A ética é sua certidão de nascimento e o acompanha ao longo da vida, nos gestos cotidianos, comuns: sempre que se colhe e escolhe um conjunto de virtudes e de valores – virtudes valores estes que foram criados antes do nascimento da nova vida e que serão recriados novinhos e de novo, a cada nascimento e a cada morrimento, de indivíduos e instituições e gerações seguintes.
Pois a ética, antes de tudo, significa esse arranjo de pequenas virtudes, tecidas e entretecidas a partir de valores dados ou criados.
Antes mesmo do arranjo social ou moral, do arranjo político, econômico, cultural, lingüístico, o indivíduo colhe nos campos da vida o que - na medida do conhecimento de si, dos outros e do mundo - traça – sozinho e/ou em companhia de outros/as, o que a define - ou se define - suas criações únicas, suas escolhas éticas, suas apostas, erros e acertos, com o futuro.
Ao estabelecer este arranjo de virtudes e os reunir nas sucessivas vezes ou relações, cultivando-os e renovando-os em infinitos buquês ou canteiros – formam os arranjos de flores que são as virtudes.
Mesmo nas ausências estão prontos a serem oferecidas e dadas e, claro, esquecidas ou recusadas.
A cada encontro com outros cultivadores e apanhadores de flores, surpreendemo-nos a si e aos outros, entre si ou além do si, nos acasos cotidianos – como bem o sabemos, o cotidiano que sempre nos escapa.
Dos mais simples aos mais dramáticos gestos e atos que se oferecem ou se trocam, por mútuas doações recíprocas – a reciprocidade é o valor da nobreza ética; e então, uns aos outros, de forma espontânea ou premeditada, sempre desejada – sempre desejada ou, se não for essa a vontade - simplesmente servem e servem-se desses arranjos para embelezar o ambiente da casa ou algum cenário desencantado do mundo ambiente.
É por causa da força desse cultivo e embelezamento da vida, que a ética é a filosofia primeira.
Não apenas minha, mas de toda uma estirpe de pensadores clássicos, filósofos e artistas, poetas e escritores, de designs e criadores – mas também das pessoas comuns que sabem, aprendem ou entendem, desde cedo, ainda crianças desentendidas do mundo, a linguagem dos sentidos, do cuidado das flores que encontram no meio do caminho.
Se essas flores forem livros, objetos e animais coisas que se possa, ainda criança, se tocar, sentir, conversar, ver, ouvir, acompanhadas por algum adulto ou não, é possível que, muito cedo, se tornem grandes arranjadores de flores.
Todo encontro que as pessoas adultas e mais velhas com os jovens e crianças – pais, irmãos, educadores, vizinhos - não é apenas um encontro com a palavra e as leis escritas, nem de convenções a serem passadas de classe a classe, de língua a língua.
Desde os primeiros encontros são sempre os pequenos gestos simbolizados pelos entregadores de flores aqueles mais interessados em conhecer de perto o significado do embelezamento da vida.
A ética nada mais é que um arranjo de pequenas virtudes, que tanto pode ser um simples buquê como um campo de flores e de valores – plantadas e cultivadas, e cujos poros/dutos/pontes fazem a ligação da filosofia à estética e destas com a Vida.
Disso resulta toda a beleza ou sua trágica insignificância. Tem algo de estético na ética que só a filosofia revela e a poesia alcança.
Nem a moral nem a mídia estão interessadas em cultivar arranjo de flores, exceto se eles forem ‘vendidos’.
Dados? - Nem pensar.
[Nisso reside a força da ética cultivada como arranjos de flores de uma primeira filosofia e uma filosofia primeira. Flor de Polis, 22 de abril de 2008].Z
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