Postado por Jose Paulo Teixeira em 14 setembro 2011 às 11:17
View Blog. VELHA NATUREZA, NOVA POLÍTICA
"Política é como nuvem: vive mudando de lugar" e "político
muda de posição como muda de roupa", diz a vulgata "política para políticos".
Sabemos que não é bem assim pois a Política é algo humanamente vil
apaixonadamente complexa.
Mesmo na relação Natureza - Cultura pode-se dizer, parafraseado o filósofo:
"a Terra não é algo que existe (apenas) sobre um globo físico mas sobretudo
dentro de um globo psíquico" (Sloterdijk). Na superfície da Terra ou dentro
de nossas cabeças, a política nem sempre desce redondo...
***
Acompanhei com atenção e grande interesse, aqui de casa pela webcan, as
quase 4 horas da reunião de ontem, 13/09/2011.
O Movimento "Por uma nova política" deu passos importantes, por um lado e,
literalmente, flutuou, por outro, o que alguns podem justificar que "não
poderia ser diferente". Talvez.
Existe um processo que está na cabeça das pessoas engajadas - na minha,
inclusive - e ainda não foi encontrado um jeito ou maneira para se construir
um consenso na diversidade sobre Para Onde Estamos Indo/Sendo. Devemos
continuar tentando, mas, com olhos bem abertos e sentidos aguçados.
Talvez porque perdemos de vista a noção de que a democracia é "o regime de
estabelecer limites" (Castoriadis) ou então "a decadência que precede ao
fim - não o fim (the end), como prefiro.
Ideias como "coletivo e individuo", "ser humano e natureza"," alma e corpo"
, "não políticos e políticos", quando tratadas como coisas e valores iguais
dão uma noção da metafísica que materializou-se na reunião, portanto,no
processo de criação do movimento e, mais uma vez, o momento deixou-se captur
pelos" novos mesmos (pensamentos e valores políticos) de sempre".
Razão pela qual a fórmula "sou +1" pode ser simplificadora ou reducionista.
Política/s - Rede, Partido e/ou Movimento é mesmo muito complicado - algo
bem importante enfatizado na reunião - assim como "construir o consenso
demora", mas é pra isso que teimamos no exercício apaixonado pela política e
a escrita.
E, de fato, pelas interpretações dominantes, não poderia ser diferente
pois - em que pese todos os esforços dos organizadores na tentativa
frustrada do rigor democrático quanto à distribuição equitativa da palavra
(a tal da audiência), ainda fazemos a NOVA POLÍTICA com as práticas da
VELHA NATUREZA discursiva que é próprio da e do (animal) político, com ou
sem mandato.
Algumas questionamentos vieram-me durante a reunião, e não os escrevi na
hora pois já passara da maia-noite, mas considerem-nos como observações
afetivas - questionamentos não peremptórios - de alguém que, de fora mas "um
pouco de dentro", pensa muito sobre os rumos do Movimento, e já podem ser
sentidos, traçados ou, em parte, enunciados, senão vejamos:
1. A velha natureza está bem forte e presente nas formulações da nova
política. O animal político chamado 'sapiens' é mesmo 'osso duro de moldar'.
Haja tijolos.
2. O movimento universaliza uma visão de processo civilizatório que vai das
hordas as bordas, da má à boa política, dos pragmáticos aos sonháticos.
Velhas dicotomias, novas vestimentas.
3. Gerundiando o "para onde estamos indo, sendo", a direção continua
"representativa" e composta de mandatários e notáveis. Parlamentares ou quem
foi candidato majoritário em 2010 já tem lugar cativo na área de cobertura.
A coordenação provisória nacional - integrada por notáveis, nem poderia ser
diferente, talvez - e mais dezoito membros, com dois representes dos grupos
que serão eleitos pela assembléia permanente sairá da "nuvem democrática".
4. O igualitarismo da "democracia" da palavra, com tempos iguais entre
homens e mulheres parece ter prejudicado a parte mais importante da
reunião - como sempre acontece na velha política: a proposta já está pronta
e nem se perde tempo para se discutir os "encaminhamentos" (direção
invisível).
5. Quando membros presentes (desconhecidos) sugeriram outros grupos,
argumentou-se que não se poderia montar novos grupos agora; quando um dos
coordenadores sugeriu uma data-limite para o evento nacional e um grupo
para redigir um documento para animar as discussões - sem prejuízos da
proposta dos grupos e coletivos - nacional, estadual - métodos de
composição, também não havia tempo e sequer foi considerada : a nuvem
decide; mas quando dois senadores admiráveis sugeriram dois novos grupos -
educação e renda mínima...
6. Nunca se sabe qual é a melhor prática da democracia: quando se igualiza
os dessemelhantes ou quando se assemelha os desiguais.
7. A questão da 'nova hierarquia' - que não deve ser confundida com
hierarquia na distribuição de poderes - mas criação e distribuição de
afetos e devires - a começar pelo mais poderoso dos afetos - bem que
poderia ser discutida algum momento no Movimento.
8. O discurso de que o movimento não é movimento para criar um novo partido
é outro ponto que merece ser exaustivamente pensado. Neste ponto, não há
um antes e um depois, penso.
9. Finalmente, algumas palavras sobre a medula de nossos entendimentos: cada
corpo, um movimento; cada instituição, um pensamento. Não estaria aí a chave
de acesso à Nova Política?
10. Talvez tenhamos alguma chance de estarmos inventando uma NOVA POLÍTICA
mesmo que contrarie a VELHA NATUREZA.
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